O diário de bordo da Baratos da Ribeiro, conforme narrado por Maurício Gouveia, o livreiro-mor da nau. O Sebo Baratos da Ribeiro está desde 2001 fazendo de Copacabana ainda mais princesinha. Livros e LPs para se fazer a cabeça e os ouvidos. Ficção, poesia, teatro, cinema, filosofia, ciências sociais. Rock, jazz, bossa-nova e tropicalismo. Quadrinhos, cartazes de cinema, pocket books etc etc e muito mais etc.

Domingo, Setembro 25, 2005

VAMOS FAZER UM FANZINE

Vamos fazer um fanzine? Começou o Festival de Cinema do Rio e a Baratos da Ribeiro convoca seus clientes, comparsas e amigos pra dividirmos as impressões sobre os filmes que veremos nos próximos dias. E prevenirmos uns aos outros das eventuais furadas escondidas na programação. E avisarmos uns aos outros daqueles títulos enigmáticos assinados por ilustres desconhecidos que escondem preciosidades imperdíveis.


Vamos reunir comentários e resenhas e depois editar, recortar, colar, decorar e rabiscar algumas páginas, xerocá-las, grampeá-las e distribuí-las gratuitamente no sebo nesta quinta-feira. A tempo do camarada passar por aqui e pescar algumas sugestões de a quais sessões ir na segunda semana do Festival.


O pessoal da MOSH! deve colaborar com ilustrações e o designer italiano Valentino, morador honorário de Piedade, deve assinar a capa. Vai ser fanzine, mas com capricho.

Até suspendemos os eventos para podermos ficar intermináveis horas vendo na telona aqueles filmes coreanos, viajandões e de diretores herméticos que saem das sombras. E para brincarmos de críticos, proseando com os amigos naquele bar depois das sessões. Então porque não registrar esses bate-bocas em papel? Vale tudo: academismo, impressionismo, campanha difamatória, babação de ovo, polêmica, analogias, notas de rodapé, fluxo de consciência, haicai, lauda inteira, três frases, pretensão, achismo, ago-trip, decupagem, blábláblá e pingos nos is.

Vamos registrar em papel o que acredito ser o grande barato do Festival: troca de idéias com a patota sobre cinema. Pra ficar no essencial, a própria criação da patota.

O BaratoCine terá duas edições. Textos para a primeira devem ser enviados até terça-feira para o endereço informebaratos@yahoo.com.br . Os outros comentários podem chegar até o dia 6 e passam pra segunda edição, que sai a tempo da semana de repetecos. Os textos/ cometários / resenhas/ análises podem ser assinados com pseudônimo mas serão publicados acompanhados de um mail para contato. Se não quiser dar seu endereço usual, crie uma conta qualquer no yahoo ou no gmail. É mole.

"QUERIDA WENDY" de LARS VON TRIER e THOMAS VINTERBERG

“Querida Wendy” é um caso cabeludo. Gosta-se dele com facilidade mas fica um gosto estranho na boca, difícil de descrever. No fim das contas é uma sátira ao faroeste hollywoodiano tanto quanto a um tipo de drama sobre outsiders em que enquadraria desde “O selvagem da Motocicleta” até “Encontros e Desencontros”. Os cineastas escandinavos que lançaram o Dogma 95 fizeram um filme melancólico e ao mesmo tempo sarcástico sobre a idéia hiper americana do loser: numa comunidade empobrecida e cronicamente provinciana de mineiros um bando de jovens de imaginação fértil cria um clube de culto a Oscar Wilde, a The Zombies e armas de fogo.


A narração em off e o reduzido espaço em que se passa a história dá um falso tom nostálgico ao filme, que enquanto desenvolve a fantasia ingênua dos jovens (um autismo meio surrealista que lembra “Almas Gêmeas”, do Peter Jackson) tem momentos engraçados e comoventes. Mas até aí filme não chega a engatar. Talvez por uma certa estupidez dos personagens, que torna pouco crível o desenvolvimento de um clube de tiro de adolescentes em uma seita no estilo Charles Manson. A indefinição da idade dos personagens também atrapalha a verossimilhança da trama: isolados os jovens agem como se tivessem 12 anos, mas são donos de lojas, moram sozinhos e são tratados pelo xerife do lugar como adultos. O discurso dos moleques sobre as armas, as brincadeiras com que matam o tédio de suas vidinhas e os códigos que criam para manter em segredo o clube são muito tolos, mas existe uma estupidez mais grave ali: apesar da intimidade do clube, os sentimentos deles não emergem e tampouco amadurecem suas inseguranças e complexos de inferioridade. Trata-se de uma espécie de estupidez emocional, evidentes na indiferença deles à morte dos pais (da menina em especial) e na ausência de pulsão sexual neles – que diabos de garoto fica indiferente a uma gatinha mostrando os seios?


Quando o filme dá a galopada para o alto, qualitativamente falando, indo da crônica de amizade para a tragédia armada, essa estupidez torna-se crucial: pessoas que se divertem e encontram vazão pra própria imaginação e curiosidades em círculos de amigos não costumam levar delírios paranóicos às últimas conseqüências. Seria como se a dupla de assassinos de “Elefante”, de Gus Van Sant, fosse substituída pelo quinteto de “Ken Park”, só que no caso de “Querida Wendy” eles não são hostilizados pela comunidade como em Elefante nem dentro de casa como em Ken Park. Em “Querida Wendy” o xerife do lugar é uma figura paterna e carinhosa e o outro adulto do filme, o dono da loja em que Dicky trabalha, é um bunda-mole chorão que trata o rapaz com total reverência. E aí está a chave do filme: os dois adultos são caricaturas, assim como todos os outros personagens, em menor grau. Existe no filme uma tese de Lars Von Trier sobre violência e o estilo de vida americano, mas ela não se revela facilmente (nem sei qual é, na verdade) porque o roteiro não cria um esquema de causas e efeitos como em “Dançando no escuro.

Quando a coisa degringola é por uma espécie de comédia de erros que lembra os irmãos Cohen. Se há um elemento trágico na acepção mais rigorosa do termo é na relação de Dicky com sua arma. Ela é Wendy, sua amada e objeto de sua maior dedicação. Incrivelmente genial é como se cria um triângulo amoroso entre Dicky, sua arma e seu amigo Sebastian, o sócio tardio do clube dos Dândis. O ciúme de Dicky é na verdade o pivô da confusão e o elemento que permite o final shakespeareano do filme.

Outro problema do filme é a impressão de glamourização de um comportamento que passa do excêntrico pra sociopatia. Mas acredito que os golpes meio baixos e clichês para criar empatia com os personagens foram usados com certa ironia. O espectador mais atento verá que “Querida Wendy” está imbuído de um certo pedantismo que ele próprio denuncia e que torna filmes como “O coração é traiçoeiro acima de todas as coisas” ou “Monsters” tão possíveis quanto perigosos. Enfim, se minha resenha não te convenceu ainda a assistir “Querida Wendy”, aqui vai o argumento final: a trilha é toda de Zombies, com ênfase no menos-ouvido-ainda primeiro disco – o que tem a fantástica “She´s not there”.

"EROS" DE ANTONIONI, SODERBERGH E WONG KAR WAI

Eros se propõe ser uma jornada erótica, em três filmes curtos, cada um dirigido por um cineasta de peso (Michelangelo Anotonioni, Steven Soderbergh e Wong Kar Wai) o que faz com a expectativa seja enorme e a frustração de igual tamanho, em alguns momentos. São três episódios independentes e diversificados, tanto na forma de tratar o erotismo, quanto na qualidade desse tratamento.


O primeiro episódio, dirigido por Antonioni, “The dangerous thread of things” é um desfile de paisagens lindíssimas da Itália, campos, árvores, praias, cavalos, carros e duas mulheres buscando alguma coisa ao interagir com essa natureza. Se é sexo, se é amor, se é realização, se é a busca por si mesma ou pelo outro, acaba não importando muito. Enquanto os planos das paisagens italianas são belíssimos, o mesmo não se pode dizer da trilha sonora de incrível mau gosto que por algumas vezes lança mão de músicas que beiram a cafonice de sexta-sexy. Esses foram os momentos mais desagradáveis. A nudez persistente das protagonistas durante quase todo o filme ultrapassou a fronteira do belo para o exagerado. Mas de um modo geral, o problema maior é que, por falta de uma história mais consistente, toda situação é muito forçada e mergulhada na obviedade, quase como um roteiro de filme pornô, e os personagens vazios de conteúdo transitam pelo filme e pelos cenários sem desenvolverem seu drama (sem ao menos possuírem algum). Se o pretendido por Antonioni fosse fazer um filme com mulheres comuns e paisagens lindas, isso até poderia suavizar o fato de não ser um bom filme - dependendo de quanto o espectador adore Antonioni e sua obra. Claro, pode-se considerar ainda que o filme foi dirigido por ele aos 91 anos e com a saúde bastante precária. O problema é que essa beleza contrasta com a pretensão oca e, por isso, é frustrante, principalmente quando a expectativa é vê-lo como o grande diretor de Blow-up, Passageiro: Profissão repórter, Além das Nuvens (co-dirigido por Wim Wenders) etc. A decepção é semelhante àquela de ouvir as músicas da fase ruim de seu artista predileto. E perguntar: Como isso aconteceu? No entanto, continuamos o adorando porque é preciso também louvá-lo, como artista atuante, que, independente das circunstâncias, continua trabalhando, fazendo seu trabalho, quer o público goste ou não. O Antonioni gostou.


O melhor dos três é o último episódio, “A Mão”, de Wong Kar Wai, o mesmo diretor de “Amor à flor da pele” e “2046” (também será exibido neste festival). É talvez o único que seja realmente uma viagem erótica como se propõe Eros, sendo ao mesmo tempo, erótico, denso, comovente e poético, com belíssimo roteiro e fotografia. É uma fábula que consegue se desenvolver perfeitamente com coerência, consistência e delicadeza. Um aprendiz de alfaiate começa a trabalhar para uma prostituta que lhe pede que ele dê o melhor de si ao costurar seus vestidos. Para isso oferece um presente que deverá ficar em sua memória enquanto estiver trabalhando para ela. Ensina também a ele o que, em sua opinião, é imprescindível na profissão de alfaiate. É necessário conhecer o corpo de uma mulher, saber tocá-la. Kar Wai desenvolve esse jogo erótico, juntamente com a densidade dos personagens, sua solidão, suas apreensões, seus desejos, valores e vontades. O sonho de cada um deles e como não conseguem fugir de suas realidades. As vidas dos personagens se embaraçam em si mesmas e uma na outra, criando uma dependência mútua, uma ligação inesquecível. Diferente do filme de Antonioni, que busca a beleza visual em detrimento da consistência da situação e dos personagens, aqui, o desenvolvimento profundo e a densidade da história e dos protagonistas não deixam de lado a qualidade estética do filme. E isso tudo em meia hora.


O filme do meio, “Equilibrium”, de Steven Soderbergh, é bastante diferente dos demais e destoa da “proposta” inicial a respeito da jornada erótica. O erotismo está embutido no problema do protagonista, e não passa de um pano de fundo na história. O que não tira o mérito do filme de ser divertido e oferecer risadas leves e esporádicas. Robert Downey Jr. é um publicitário que está numa consulta com um psicanalista para tratar também de um sonho que o persegue com freqüência. A seqüência inicial é colorida, mostrando uma bonita mulher se arrumando, com tons predominantemente azuis, e imagens bastante belas, e depois parte para a visita ao psicanalista, agora em preto e branco. Os jogos com as cores e com a dualidade sonho/realidade são óbvios e já muito usados, mas, no contexto, acabam funcionando de forma excelente. O espectador de diverte com os problemas não só do paciente, mas com os que acabamos descobrindo no terapeuta.


Muito provavelmente, o filme vai estrear aqui, portanto não se preocupe com sessões esgotadas neste Festival.

Sábado, Setembro 10, 2005

SUPERBARATOS 2 NO TEATRO ODISSÉIA 11/09/05

SEBO BARATOS DA RIBEIRO & REVISTA MOSH!

Convocam para


SUPERBARATOS >> A FESTA

VOLUME II


11 de setembro, domingo, Teatro Odisséia, às 18h,

R$ 10,00 ou 12,00

Bandas Matadoras, DJs Sem Piedade & Feira de Fetiches

Pros que crêem piamente na guitarra elétrica!

Bandas ao vivo, DJs, Cinema, roupas, CDs, bottons, livros, revistas & zines

Estrelando:

Matanza, a banda mais Johnny Cash do Hardcore Selvagem

Nelson & Os Gonçalves, a banda mais Spagetti & Mariachi do hard rock de fronteira

Zumbi do Mato, o conjunto de câmara mais punk que já pisou num palco

El Efecto, o hardcore de bermudas mais infiel ao que se conhece por hardcore e bermudas


Com Participações Especiais de

DJ Eraserhead (Gás)

DJ Ácaro (Vespeiro).

DJ Fábio Lyra (criador da Menina Infinito)


+ Feira de Vinil, Moda & Acessórios,

com stands do

Sebo Baratos (livros, LPs, Cds e camisetas), Copacabana

Outside (Lps e CDs), Méier

Plano B (LPs, CDs, esquisitices em geral), Lapa

Red House (LPs, CDs), Flamengo

SelfTapes (shows e raridades televisivas em DVD)

Gibiteca Editora (revistas de música & quadrinho alternativo)

Ediouro (quadrinhos europeus, mangá & livros sobre música)

Grife Bruzundanga (vestuário & acessórios), Copacabana

Grife Limonada (camisetas)

Grife Fel (camisetas)

Grife Train In Vain (bottons)

Marca Goodies (bijoux)


+ O LANÇAMENTO DA GRIFE POP PORN:

Após 1 ano afastadas pelo trabalho de Christine Mazaracki como modelista da marca Enjoy e do curso de pós graduação em moda de Aline Rocket em Lyon na França, as ex-alunas de moda decidem retomar o sonho de quando se conheceram na conclusão do curso universitário: montar uma marca para pessoas que tem um estilo tão forte que não o mudam no decorrer das estações: o público rock'n roll.

Em janeiro de 2005 surge a Pop Porn, uma marca que quer dizer não a ditadura da moda. Roupas inspiradas no fetiche, na obscuridade e na rebeldia fazem parte do universo Pop Porn, onde a moda de rua recebe uma releitura sofisticada. O caos urbano é a essência da marca. Depois de sete meses numa caverna escura criando os modelos, é hora de mostrá-los ao público. E nada melhor de que fazer isso num show de rock.


+ Mostra de Curtas Bombásticos

com VJ Eraserhead no terceiro andar

dia 11 de setembro, domingo às 18h,

R$ 10,00 com filipeta ou até às 20h

Sem filipeta R$ 12,00

Teatro Odisséia

Av. Mem de Sá, 66 Lapa Rio RJ Tel: 21.2224-6367


Uma Produção


Sebo Baratos da Ribeiro

www.baratosdaribeiro.com.br

www.baratosdaribeiro.vipflog.com.br

www.baratosdaribeiro.blogspot.com


Revista MOSH!

www.revistamosh.com

Segunda-feira, Agosto 22, 2005

PORQUE ESTE MUNDO NÃO É UMA BRASTEMP (TESE 1)

Porque ninguém exige de si próprio o que exige dos outros. Quando se trata de situações em que o sujeito está envolvido ele sempre considera que as circunstâncias abrem uma exceção. John Lennon é o melhor exemplo. Nada de maldizer Yoko Ono (ela tem meu respeito pela participação no movimento artístico Fluxus e outras vanguardas – quem puder assistir o documentário de Peter Whitehead sobre o Pink Floyd em 66/67 verá o nome de Yoko em cartazes de happenings da época – e pela participação xamânica-esquizóide no tributo ao musical ”Hedwig & The Angry Inch”), mas quem conhece o beabá sobre o ex-Beatle sabe que ele costumava dar bola fora ao escolher suas companhias. Como alguém que prega que se faça o amor e não a guerra, alguém que em protesto contra o conflito no Vietnã passa semanas fazendo amor com sua esposa pôde ter sido amigo de Phil Spector, um cara que foi preso por matar a própria mulher com um tiro? Phil Spector ficou milionário aos 18 anos compondo hits pseudo-roqueiros (“Be my baby”, gravado pelas Ronettes e que voltou às paradas ao ser regravada para a trilha de “Dirty Dancing”) para grupos vocais pré-fabricados pelas majors, virou a pá e começou a colecionar armas. Phil Spector, inventor do estranhamente cultuado Wall of Sound (dúzias de instrumentos sobrepostos formando uma maçaroca sonora mixado com o vocal láááá na frente) virou produtor e tirano altamente requisitado. Os Ramones, fãs do rock ingênuo dos anos 50, trabalharam com Spector; um dos argumentos que o produtor usou para mantê-los no estúdio por horas a fio foi um revólver de grosso calibre. Lendo o número 82 da Mojo descobri outra história cabeluda. Em 1975 o promotor de discos Tony Bramwell voltava de uma turnê com Bruce Springsteen e resolveu visitar Phil Spector para saber do andamento de um disco encomendando pela gravadora de Tony ao produtor. Chegando à mansão de Phil, Tony esperou no escuro pelo anfitrião, que ao dar as caras fez alguns comentários enigmáticos, colocou seu bar à disposição do convidado, pediu que ele esperasse um pouco e desapareceu. Dezenas de minutos e de doses de vodkas depois, Tony Bramwell se cansou e decidiu esticar as pernas. Passeando pela mansão, encontrou a sala de jogos, brincou de mata-mata com as bolas que estavam na mesa de sinuca e continuou perambulando. Até que um empregado da casa o encontrou e suando frio pediu que ele fugisse: “Phil está armado e diz que vai atirar em você. Aquela mesa de sinuca estava intocada desde que Fats Domino passou por aqui e abandonou a partida no meio”. Tony deu no pé. Em 2003 o alvo de Phil Spector não teve tanta sorte. Sua esposa Lana Clarkson morreu instantaneamente. O cara tinha 64 anos e uma conta bancária suficiente para muita extravagância, precisava? Pois John Lennon perdoava os impulsos homicidas do amigo porque achava que conhecia bem o bastante o homem para perdoá-lo. Uma atitude nobre aos olhos de um senhor feudal do século IX ou do cimério Conan, mas absolutamente irresponsável a esta altura da civilização. Atitude talvez tão natural e insensata quanto o ciúmes que sentimos do cara que namorou nossa esposa há 10 anos: julgar com condescendência o que nos é familiar e com absoluta displicência o que diz respeito a nós mesmos. Como meu tio petista fervoroso que não oficializou o casamento para que a mulher não perdesse uma pensão herdada do avó milico direitista. Assim como John Lennon e Phil Spector, Mahatma Gandhi e Charlton Heston serem camaradas não faz sentido. Mas quantos de nós, que agora nos indignamos com os escândalos do mensalão e propinodutos, podemos oferecer a própria conduta ou a de nossos amigos como exemplo de santidade? Quantos de nós optam por uma vida mais honesta ainda que mais pobre? Quem quer dar o exemplo?

Sexta-feira, Agosto 12, 2005

NÃO É SÓ O ROBERTO JEFFERSON QUE BOTA A BOCA NO TROMBONE

(Dio mio, fui meia dúzia de post pra baixo e me deparei com maio. Preciso ser mais cristão, como diria minha bisavó, com a atualização deste site!) Já que o país está num momento seríssimo politicamente, nos fará bem pensar com afinco similar em outras questões importantes, como industria editorial.

Existe uma discussão muito séria e importante acontecendo entre os profissionais do livro no Brasil. Ela parte de uma constatação um tanto óbvia: o mercado de livros encolhe cada vez mais porque a população lê cada vez menos. Se algumas editoras e livrarias conseguem se adaptar e têm criatividade para driblar essa tendência, trata-se de uma minoria. O número de livrarias que faliram nos últimos anos é imensamente maior do que as que abriram. Só estão tranqüilas as grandes redes dom porte da Saraiva ou Siciliano. Em alvoroço e lutando por uma solução estão os médios e pequenos empresários. Tanto que no Rio de Janeiro o fórum mais quente para este debate costuma ser a primavera do Livro, que a LIBRE promove no segundo semestre.

Para apresentar ao sujeito o pega-pra-capar, transcrevo aqui a pequena reportagem de Carlo Carrenho, editor da pequenina e excelente editora Carrenho. Carlo, além de publicar autores novos e investigações jornalísticas de primeira, mantém um informativo virtual diário, basicamente um clipping do que saiu na véspera na imprensa, sobre o mercado editorial, chamado PublishNews.


”A 15ª Convenção Nacional de Livrarias que a Associação Nacional de Livrarias (ANL) está realizando no Rio de Janeiro foi marcada ontem pelo debate "Lei do Preço Único", do qual participaram Marcus de Carvalho, presidente da ANL regional e diretor da Livraria Leitura; Paulo Rocco, presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL); e Angel Bojadsen, presidente da Liga Brasileira das Editoras (LIBRE). A mediação foi feita por Eduardo Yassuda, presidente da ANL. Bojadsen abriu o debate com uma breve exposição em defesa do preço fixo ou único, ou seja, da limitação dos descontos oferecidos para o público final como forma de proteger as livrarias independentes que não podem concorrer com os descontos de grandes redes e supermercados. "Como editor e presidente da LIBRE, sou a favor do preço fixo. O histórico de países que o adotaram é tão positivo que não deixa dúvidas." O presidente da LIBRE ainda lembrou que na França, onde os descontos sobre lançamentos são limitados a 5% por dois anos, ninguém mais discute a questão e até a FNAC, que era contra a idéia nos anos 1980, percebeu que se beneficiava com o preço único e hoje é a favor da regulamentação. Em seguida, foi a vez de Marcus de Carvalho defender a limitação dos descontos utilizando uma análise do histórico recente da indústria fonográfica. Segundo Carvalho, a completa ausência de regulamentação do setor fez com houvesse uma grande concentração na venda de CDs de sucessos nos grandes magazines e supermercados, que respondem hoje por 50% do mercado varejista, e permitiu a falência da maioria das lojas especializadas. A conseqüência teria sido a diminuição da diversidade de títulos no mercado e a concentração do setor em poucas gravadoras. O debate esquentou com a chegada de Paulo Rocco, que se atrasou devido a outros compromissos (vide nota abaixo).

MAS O QUE É QUE TÁ PEGANDO AFINAL?

Agora a opinião de Paulo Rocco sobre a questão do preço único:

"O preço fixo é parte de um problema mais amplo. O posicionamento do SNEL tem sido não ser contra o preço único, mas sim contra qualquer legislação que estabeleça o preço único sem que ocorra um amplo debate. Em primeiro lugar, temos de pensar no leitor", declarou Paulo Rocco presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros. De maneira geral, estas afirmações resumem a posição de Rocco, que em nenhum momento afirmou ser contra o preço fixo, mas tampouco mostrou-se simpático à idéia. De forma geral, o presidente do SNEL defendeu a discussão do preço fixo dentro de um debate maior, que englobe outras questões do mercado. "Não sou contra ou a favor da lei do preço fixo, mas ela deve ser discutida dentro de um âmbito mais amplo", afirmou. "O preço fixo solto, sem outras regras acessórias, não resolve. Discuti-lo de forma independente das equações ligadas à questão é suicídio", completou. Rocco ainda deixou claro que acredita que existam questões mais importantes para serem discutidas, como a luta pela venda de didáticos dentro das livrarias. Durante o debate, Angel Bojadsen questionou o presidente do SNEL. "Como editor, não necessariamente como presidente do SNEL, o que leva você a não se deixar convencer sobre a lei do preço fixo?", perguntou o presidente da LIBRE. Ao responder, Rocco sugeriu que se discutisse também a questão do desconto fixo, "um mesmo desconto para todas as livrarias não importando seu tamanho". Mais tarde, o presidente do SNEL voltaria à questão colocada por Bojadsen, explicando sua posição. Hipoteticamente, Rocco considerou um modelo em que uma grande livraria teria 50% de desconto enquanto uma livraria pequena teria apenas 30%. "Nesta situação, se o preço for fixo, a livraria grande se capitaliza mais, em detrimento da pequena. Daí a minha dúvida. Preço fixo e descontos desiguais podem prejudicar as livrarias pequenas", explicou o editor.

Não vou chatear o sujeito dando a minham própria opinião, mas vou meter o bedelho com algumas perguntas e considerações:

1) Em suma a discussão é sobre regulação da concorrência, especialmente entre empresas gigantescas e nanicas. Um dos lados claramente parte do pressuposto de que o público escolhe comprar onde recebe mais desconto. Algumas perguntas: será que o livro, como artigo supérfluo, não está mais próximo de roupas, um mercado em que as lojas se firmam mais pela reputação de terem um estoque de qualidade e certo charme do que pelo preço que cobram? Quantas pessoas escolhem a livraria tal porque é caminho do trabalho ou da casa do namorado? Quantas pessoas sabem, ao comprar um livro na Saraiva MegaStore ou na Finac, que estão pagando menos do que na Livraria da Seu Zé?

2) De fato o único mercado que cresce é o de sebos. Quem realmente se preocupa em pagar menos vai pros sebos, economizar 50 ou até 70% ao invés de brigar por 10 ou 15%.

3) Das Livrarias estáveis que o Rio de Janeiro possui, quantas estão localizadas fora da Zona Sul? O seu porteiro, o trocador de ônibus ou o atendente do boteco da esquina entrariam na Livraria da Travessa? Ou ficariam constrangidos? Qual o tamanho do classe A e B?

4) Existem hoje no Brasil mais editoras do que livrarias. Esses números estão na casa do um milhar e meio, com uma diferença na casa da centena. (Só Buenos Aires quase tantas livrarias quanto o Brasil todo.) Quantas dessas editoras fazem livros populares, que custem até 15 reais? Os gêneros populares de leitura sempre foram os romances policiais e as novelas água-com-açúcar. Quem acha que na França está todo mundo no metrô lendo Proust está muito enganado. Quanto custa em média um livro novo da Danielle Steel? Ou os livros de Lawrence Block?

5) Será que as escolas contribuem pra formação de mais leitores obrigando a criançada a ler José de Alencar ou poesia parnasiana? Os livros da minha (pré)adolescência dos quais me lembro com carinho são “O Esqueleto atrás da porta” da Stella Carr, o texto original de Pinocchio do Collodi, uma turma de detetives criada por Carlos Heitor Cony para a Ediouro, Stephen King, a ficção científica que entremeia “Admirável Mundo Novo”, as drogas e o rock de “Christiane F, drogada e prostituída” e os duelos, naufrágios e virgens suicidas de “Noite na Taverna” do Álvares de Azevedo. Foi o que me fez gostar de ler, não meus professores.

Domingo, Agosto 07, 2005

PORQUE NUNCA FICAREI RICO

Mesmo colocando em risco minha reputação de livreiros, tenho uma confissão a fazer: eu levo livros e discos da loja para casa! Tem aquela piada sobre o que faz o Brasil dar errado, que fala do lugar onde traficante também é viciado. O que acontece é que ter um sebo pode ser também uma estratégia para ter uma biblioteca ou discoteca com a qual meu próprio bolso jamais poderia sonhar. Mas como a Telemar e meu senhorio não aceitam pagamento em música ou literatura, volta e meia me obrigo a faxinas de bota-fora. Um meio termo para quem, como eu, já sonhou que encontrava um disco (ontem foi Eddie & The Hot Rods) ou ouve sinos badalarem quando se depara com um livro muito charmoso. É preciso se induzir a certos dribles psicológicas. Já que adquirimos esses objetos compulsivamente, um truque pode ser assumir o compromisso de ter um número limitado de coisas em casa. O sujeito estabelece, por exemplo, que não cabem mais do que 500 livros em casa, e sempre que ele trouxer mais um e a cota estiver estourada, o sujeito sacrifica alguns mais itens mais antigos da coleção, cujo poder sobre sua libido já diminuiu. Essa última biblioteca que o Sebo Baratos adquiriu, a de Santa Tereza, foi um choque para mim. Imagino o Gilberto, nosso livreiro-ator, chegando para um daqueles testes de comercial de cerveja, em que ele interpretará um barman que passa a garrafa para uma gostosona. Adentra então uma sala com 38 modelos espetaculares disputando o cachê da moça-de-shortinho-jeans. Depois de alguns minutos de torpor, com os hormônios em ebulição, os leucócitos de Gilberto atacam seu hipotálamo e bloqueiam de vez o congestionado fluxo de excitação que o paralisa. Nosso herói respira fundo e diz pra si mesmo: “caramba, hoje vou chegar mais cedo em casa pra curtir minha gatíssima esposa”. Foi mais ou menos assim que reagi às centenas de bons livros de história e arte, me bateu uma imensa saudade dos livros que deixei pela metade em casa. Acabei levando apenas meia dúzia para apreciação caseira prévia (que servem de exemplos pra quem ainda foi até a loja conferir as novidades): 3 dos 5 volumes hardcover com os diários de Virgínia Woolf (Harcout Brace Jovanovich, 1977); 2 dos 3 volumes hardcover de correspondência de Virgínia (lançados pela mesma editora um ano antes); o primeiro volume da “História da Arte Italiana” de Giulio Argan lançada pela Cosac & Naify ano passado (500 páginas, vários cadernos de ilustrações em papel couchê e com capa dura); e “Florence: a portrait” de Michael Levey (500 págs., hardcover, Harvard University Press, 1996). Mas há muito mais esperando pelo sujeito ali no 354 da Barata Ribeiro. Se confisquei uma biografia do dirigente nazista Albert Peer (“The good nazi: the life and lies of Speer”, de Dan Van der Vat, Houghton Mifflin Company, 1997, hardcover, 406 págs.), o ministro que desobedeceu Hitler e que recebeu a punição mais leve em Nuremberg, a biblioteca tinha ainda outras 3 biografias, uma delas escrita pelo próprio.

Sábado, Julho 09, 2005

CACHORRO GRANDE NA BARATOS

NOTÍCIA QUENTÍSSIMA!


Onde você estava no dia 25/09/2004? Pois é, o Cachorro Grande estava no sebo Baratos da Ribeiro mandando horas de rock’n’roll de graça. Hoje vai repetir a dose.

DIA 09 DE JULHO DE 2005, ÀS 18 HORAS

NO SEBO BARATOS DA RIBEIRO

DE GRAÇA!

SHOW SUPRESA DA BANDA

CACHORRO

GRANDE

sebo Baratos da Ribeiro

Rua Barata Ribeiro 354, Copacabana

(próximo ao metrô Siqueira Campos)

Sexta-feira, Junho 24, 2005

VESPEIRO DESTE SÁBADO 25

No Vespeiro de manhã, SÁBADO 25:

LANÇAMENTO DO NOVO DISCO DO

ZUMBI DO MATO

O HISTÓRICO QUARTETO DE PUNK PROGRESSIVO QUE INAUGUROU A NO-WAVE NO NU-JAZZ-DE-GARAGEM COM SUAS PESQUISAS DADAÍSTAS NA ANTROPOFAGIA MIKEPATTONESCA APLICADA À IRREVERÊNCIA MAIS DESBOCADA QUE SE TEVE NOTÍCIA

+ SEX NOISE (às 18h)

A BANDA PUNK MAIS BALADEIRA DO OESTE CARIOCA

+ DJ ÁCARO tocando o rock mais improvável da paróquia desde as 17h

+ bandas independentes nos altos-falantes

+ 15 mil livros supimpas

+ 5 mil LPs de lamber os beiços

+ BAR DE BOLSO cheio de drinks coloridos

+ bate papo informal nesse ambiente aprazível

E ZUMBI DO MATO, como apresentar?

Ao ZUMBI DO MATO não cabem teorias e bordões. Eis uma banda imune a marketismos. Só testemunhos muito pessoais podem dar conta do que é presenciar esse fato, tão musical quanto artístico no sentido mais heiddegeriano e pós-moderno possível.


Então vai entre aspas o meu (Maurício Gouveia) relato:

“Os primeiros shows que freqüentei quando cheguei no Rio de Janeiro foram no sebo Berinjela, no centro. Um deles foi o do Zumbi. De imediato, achei que tratava-se de piada.
Aqueles caras sabiam tocar algum instrumento? Caso a resposta fosse sim, estariam ouvindo uns aos outros enquanto tocavam? Se afirmativo, será que haviam brigado no camarim e estavam tentando sabotar uns aos outros em pleno palco (no sentido metafórico, já que não havia palco)? Afinal, como algo podia ser tão roqueiro e de tirar o fôlego se não havia guitarra na banda? Por que um baixista tão aparentemente metaleiro permitia que seu tecladista soasse trilha sonora de fita do Atari com tilt? Por que eu estava gostando se as pretensamente “músicas” eram um insulto à fórmula melodia>harmonia>ritmo?

Fiquei estarrecido e maravilhado. Imaginei Brian Wilson no seu primeiro contato com uma apresentação ao vivo do Velvet Underground. Ou Vivaldi transportado para a platéia de um show do Sun Ra ou do Stockhausen. Maria Callas conhecendo Nina Hagen. Esperei pelos próximos shows antes de arriscar uma opinião.

Depois de alguns, percebi que todos os músicos do Zumbi dominavam seu instrumento com maestria. Vi Löis Lancaster levar King Crimson com sua banda Elephants Terríveis: impecável. Conversei com o tecladista e o cara adorava – e estudava - La Monte Young e Stravinsky. Ouvi de novo: ninguém estava se sabotando, aquele caos todo é um bate papo bem humorado, incrivelmente bem casado em velocidade alucinante. Mas faltava uma peça no quebra-cabeça. Descobri então que a inspiração do canto de Löis era Oswaldo Montenegro e aí tudo fez sentido. ZUMBI DO MATO não é para ser entendido. É para fazer a higiene de nossos ouvidos. Exorcizar nossos vícios em velhos e cansados tons, melodias e balanços. É para quem, além de música, adora surpresas. Ah, ok. Eu adoro.”