O diário de bordo da Baratos da Ribeiro, conforme narrado por Maurício Gouveia, o livreiro-mor da nau. O Sebo Baratos da Ribeiro está desde 2001 fazendo de Copacabana ainda mais princesinha. Livros e LPs para se fazer a cabeça e os ouvidos. Ficção, poesia, teatro, cinema, filosofia, ciências sociais. Rock, jazz, bossa-nova e tropicalismo. Quadrinhos, cartazes de cinema, pocket books etc etc e muito mais etc.

Terça-feira, Março 22, 2005

A CONTINUAÇÃO PARA TELONA DE “ANOS INCRÍVEIS”

“Garden State” no original, aqui traduzido como “Hora de Voltar”. O sujeito se lembra de “Wonder Years”, aquele seriado que acompanhava a adolescência de Kevin Arnold? Se como eu, o sujeito chegou a chorar acompanhando as tolices & trapalhadas de Kevin Arnold, Garden State vai te pegar pelo pé e te botar na lona. Vai quebrar teu pobre coração. Imagine que Kevin voltasse para o subúrbio – ou a cidadezinha – onde cresceu depois de nove anos em Los Angeles. Paul Pfeiffer ficou milionário com a patente de um velcro silencioso e Winnie Cooper já não mora lá. Um dos amigos da segunda fase da série (durante a high school), aquele de topete encaracolado castanho, virou coveiro e aparentemente um imbecil de proporções cósmicas. O Kevin de Garden State, chamado Andrew Largman (Zach Braff, do seriado Scrubs), acaba descobrindo que ter um emprego de merda e colecionar brinquedos velhos não faz de alguém um idiota, que não é onde se vive mas com quem se vive que interessa, que é preferível o risco de sofrer no jogo da vida do que se manter na platéia – covardemente se escondendo na superficialidade ou leviandade. Não é um filme para cinéfilos. Encare aqueles capazes de se entregar ao drama, de se colocar na pele dos protagonistas, de preencher as lacunas da película com suas próprias reminiscências. Trata-se até de um filme piegas, por que trata de sentimentos que somem de vista quando andamos mais pragmáticos. Um filme que crê no amor como solução. Bruno Porto, do Globo, descreveu como um filme indie. Na trilha sonora, grandes bandas do circuito alternativo americano: Iron & Wine, Frou Frou e The Shins – que já circulava nos sets do DJ Ácaro com “we will become shilhouettes”. Mas a expressão “filme indie” não é mais nebulosa do que “rock indie”. Afinal, hard rock, punk, heavy metal e rockabilly são gêneros são características formais muito nítidas (certos andamentos, pedais de guitarra, harmonias etc), mas no balaio de gatos do indie rock Postal Service, Pavement, Mission of Burma, Trans Am e Cat Power estão lado a lado, sem nada em comum além de sua posição mercadológica – vendem pouco, pruma galerinha que se vê nas mesmas festas. Aliás, arriscaria afirmar que o indie rock tem em comum a discrição. Postal Service agradaria aos fãs de Depeche Mode – mas não é tão dançante. Pavement agradaria aos fãs de Frank Zappa ou John Cale – mas não é tão despirocado quanto o primeiro nem tão bem-acabado quanto o segundo. Mission of Burma faria sucesso numa festa punk – mas não é tão agressivo. Algumas canções do Trans Am poderiam se passar por surf-music – mas outras poderiam estar num disco do Sonic Youth. Cat Power pode soar como Joni Mitchell – mas a dos anos 60, sem nenhuma sombra do perfeccionismo ou inclinação jazzística da canadense. Afinal, a melhor pista sobre o indie rock é de Rodrigo Lariú, produtor do festival “O Indie é o novo Pop”. O indie tem todas as qualidades do pop, mas não aceitou a embalagem reducionista do mercado pop(o figurino, os programas de televisão, a programação visual dos seus CDs, a homoneigidade de repertório, a fidelidade canina à uma “sonoridade” da banda, a mixagem que joga as guitarras lá pros fundilhos). O indie é aquilo que só não é pop por incompetência das gravadoras e estreiteza de cabeça dos consumidores. O indie tem detalhes demais e o público não tem paciência pra ler uma sinopse com mais de 3 linhas. Por aí, “Garden State” é indie até a medula. Poderia ser uma comédia, mas o riso é nervoso. Poderia ser um drama, mas não há tragédia no filme. Poderia ser uma história de amor, mas se o mocinha fica ou não com a mocinha não tem importância nenhuma. Poderia ser um filme adolescente, mas dificilmente alguém com menos de 25 entenderá o que está realmente em pauta. Poderia ser um “filme de arte” como “Antes do Pôr-do-Sol” de Richard Linklater, mas pode ser digerido com a mesma facilidade que a comédia “Escola do Rock”. “Hora de Voltar” não mudou minha vida, mas renovou minha fé de que a arte e as pessoas podem mudar minha vida, quando eu menos esperar. Post escrito durante audição do disco solo de Stephen Malkmus, de 2001, pra garantir que não houvesse aqui nada mais do que a verdade. Uma canção: “Trojan curfew”.