O SUPERMACHO
Em um sebo o sujeito precisa ter olhos nas costas e nunca piscar. Mandar a namorada dar uma fuçada naquela outra prateleira longe dele e jogar o relógio lá no fundo da mochila. É preciso paciência e atenção para se descobrir as pérolas esquecidas debaixo de tanta areia nova que as editoras despejam na praia da literatura. Uma preciosidade que resgatei recentemente – e não está à venda, o sujeito que espere pelo próximo exemplar que pintar! – foi “O supermacho”, de Alfred Jarry. Confesso que só abri a brochura graças ao título deveras bizarro. E não é que Alfred Jarry foi um dos mais polêmicos surrealistas franceses? E o livro é uma genial sátira contra a mecanização do sexo? Aliás, os fãs do surrealismo deveriam investigar o caráter de seus ídolos quanto ao tema sexual. Na histórica revista que os surrealistas lançaram foram transcritos alguns diálogos, uns debates, que a turma promovia em suas casas, enquanto tomavam vinho. Esses diálogos foram editados em livros separados em Portugal, e o debate sobre sexo é de arrepiar os cabelos. André Breton, que escreveu livros picantes como Nadja, revela um conservadorismo asqueroso, a ponto de confessar repúdio ao amor entre duas mulheres. Alfred Jarry esteve sempre vários passos à frente de seus colegas, que afinal não passavam de dandis fantasiados de dadaístas (quer caretice maior do que a idéia de beleza?). Escreveu a peça “Ubu Rei” e criou a Escola de Patafísica, genuína rebelião contra os cânones artísticos e que tem seu lugar na tradição da vanguarda conforme o excelente livro de Stewart Home – “Assalto à Cultura, Editora Conrad – atesta. “Supermacho” foi lançado na década de 70 pela editora Coordenada, que talvez tenha sido má influenciada pela Artenova, a pior editora de grandes livros (“O Senhor dos Anéis” e “Laranja Mecânica”, por exemplo) que o Brasil já teve. “Supermacho” conta a história de um professor universitário que circula por uma aristocracia desmiolada e super-equipada (rallys transatlânticos em carruagens movidas à combustíveis exdrúxulos), dotado de uma genitália sobre-humana, que parece saído da commedia dell´arte e acredita que o crime compensa. O livro é excelente, mas ainda não terminei. Amanhã transcrevo um trecho do capítulo que narra a infância e a descoberta do próprio sexo pelo jovem super-dotado.

1 Comments:
Essa tradução que você está lendo
é do Antonio Fraga, autor de
"Desabrigo", o primeiro romance
brasileiro escrito em gíria (da
década de 40!). Além de escritor
e tradutor, Fraga também era
gigolô, e morava em Queimados.
Na década de 80, a Brasiliense
lançou outra tradução, do Paulo
Leminski, mais conhecida.
Jayme Chaves
22 de março de 2005 23:54
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